Marcelo Braga Costruba

Gerente da Divisão do Contencioso 

É comum ver empresas sendo autuadas pelo Fisco Estadual, sob o argumento de que a empresa adquiriu mercadorias de estabelecimentos em situação cadastral “Inapto/nulo”, cujos documentos emitidos pelo fornecedor (notas fiscais) foram considerados inidôneos pelo Fisco. Geralmente, o contribuinte também é autuado pela falta de recolhimento do ICMS, na qualidade de responsável solidário pelo tributo devido nas operações subsequentes. 

Na maioria das vezes, as operações fiscalizadas, objeto da autuação, são anteriores à declaração de inidoneidade do vendedor emitida pela Secretaria da Fazenda, porém, isso não é levado em consideração pelo fiscal, que retroage seus efeitos até o período fiscalizado, justificando assim sua autuação. 

No entanto, para o Superior Tribunal de Justiça (STJ), o comprador de boa-fé não pode ser culpado pela verificação futura da inidoneidade da documentação apresentada pelo vendedor, uma vez que tal atribuição é de competência da Secretaria da Fazenda, de forma que, uma vez demonstrada a efetividade das operações, o direito ao crédito lhe é garantido. 

Nada mais justo, pois como pode o comprador presumir a inidoneidade de notas fiscais se no momento da operação não existia nenhum indício de irregularidade do fornecedor? A resposta é óbvia: não poderia e sequer deveria, pois se nem a Secretaria Fazenda com todos os instrumentos hábeis tinha conhecimento, quem dirá o contribuinte. 

De fato, o tema foi objeto da Súmula 509, do STJ, que tem o seguinte teor: “É lícito ao comerciante de boa-fé aproveitar os créditos de ICMS decorrentes de nota fiscal posteriormente declarada inidônea, quando demonstrada a veracidade da compra e venda. 

Portanto, para que o contribuinte possa fazer jus ao crédito do ICMS de acordo com a orientação do STJ, é necessário (i) que a nota fiscal tenha sido emitida anteriormente à declaração de inidoneidade do vendedor, (ii) provar que este agiu com boa-fé e (iii) que a operação de compra e venda de fato ocorreu. 

Na prática, uma vez constatado que o período autuado é de fato anterior à declaração de inidoneidade, o contribuinte pode demonstrar que a aquisição realmente ocorreu e consequentemente que agiu com boa-fé, através de documentos como: 

  • Comprovantes de Pagamento;
  • Notas Fiscais da Operação;
  • SINTEGRA da época;
  • Controle de Estoque;
  • Registro do Livro de Entrada;
  • Declaração de Cadastro do Contribuinte do ICMS (antiga DECA).

Nesse sentido, outro aspecto que vem sendo levado em consideração é a comprovação da existência do estabelecimento, ou ao menos a demonstração de que este existiu à época das operações. Pode soar estranho, mas a existência de fotos, panfletos, ou até mesmo uma imagem obtida através de consulta ao “google maps”, vem ganhando força para demonstrar a existência física do estabelecimento vendedor perante os Tribunais.

Assim, com essa Súmula do STJ, o ideal é que se verifique nos processos já autuados se existem elementos que demonstrem a boa-fé do adquirente, sendo que, para as futuras operações, o registro e a posse dos referidos documentos serão fundamentais para cancelar eventuais novas autuações.


 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>